José Geraldo Heleno assina a orelha do novo livro de Oscar de Alencar Araripe
“Uma vida de pintor” retrata a trajetória de um dos pintores mais admirados e cobiçados do Brasil, sempre convidado a expor nas capitais brasileiras e em muitos países. Dizer que é um pintor renomado é redundante. Seu sucesso comercial e a opinião da crítica nacional e internacional são suficientes para atestá-lo.
Além de grande nome na Pintura, Oscar tem uma vivência muito destacada na literatura, inscrevendo-se, de pleno direito, na plêiade familiar dos Araripe e dos Alencar, de cujas famílias ele é parte significativamente integrante.
Seu modo lírico de ver o mundo através das borboletas e das flores é sentença de morte contra qualquer suspeita de clichê.
Um grande poeta pintor que escreve a pintura e pinta a literatura poética.
Tão original e poético que sua arte paira acima do tempo e do espaço. Sua narrativa, quer pictural, quer literária, se rebela contra a linearidade escrava das sucessões e a causalidades e demarcações espaciais do mundo. Para não se mostrar, no entanto, totalmente alheio à realidade dessas duas dimensões, ele consegue presenciar o Novo e o Belo fixando-os em tela e texto, ao incorporar as vivências da infância no Encantado, as experiências da vida no Rio de Janeiro, em Mirantão, Ouro Preto e Tiradentes, tudo isso somado ao seu cosmopolitismo, que o levou a residir em Roma e nos Estados Unidos.
Em todos esses lugares e ocasiões, ele pintou - e continua pintando- , quebrando as bordas dos espaços e as sirenes dos tempos, e lançando sobre o espaço-tempo tudo aquilo que faz do pintor Oscar Araripe o PINTOR.
Num tempo em que o dinheiro é o móvel de tudo, a pintura de qualidade, como é a de Oscar, tem justamente a função de purificar esse dinheiro, subtraindo dele o papel determinante da definição de valores, conforme sustenta o pintor, ao afirmar que o verdadeiro dinheiro é a Pintura.
A arte de Oscar, no transitar pela pólis, faz nascer da mão do artista a força que mantém viva a própria pólis. Sua exposição de 1992, por exemplo, por ocasião da Conferência das Nações Unidas Eco-92, recebeu milhões de visitantes. A pintura se torna, então, o sangue circulante em que se transforma o dinheiro. Por isso, vender um quadro de Oscar não é um ato que se esgota no fato comercial da troca. A qualidade do quadro gera o comprador. Este, por sua vez, acelera a circulação do dinheiro convertido em sangue puro, o qual, por sua vez, realimenta a pólis. A venda, nessas circunstâncias, é ainda um ato intensamente político, que vem a somar-se à trajetória política em seu sentido comum, lembrando-se que Oscar foi sempre integrado às questões sociais e políticas de seu país. Seu engajamento levou-o a ser alvo, como jamais seria diferente, da ditadura militar. A força da arte foi uma das alavancas a contribuir na conversão em sucesso e reconhecimento aquilo que lhe foi qfora aplicado com intenção punitiva pelos donos do poder à época. Em resumo, “Uma vida de pintor” é o inventário de uma trajetória excepcional e extremamente bem sucedida.(JGHeleno, 30/04/2026)