
Há homens cuja vida parece escrita em várias tintas, ou melhor, em várias cores. A de Oscar Araripe reúne o traço do pintor, a inquietação do jornalista, a imaginação do escritor e aquela rara qualidade dos que atravessam o tempo sem jamais perder o brilho. Uma vida de pintor é dessas obras em que a escrita transforma beleza em memória, e memória em estilo. Protagonista de muitas temporadas culturais, Oscar percorreu décadas cercado de telas, livros, viagens, paixões e de uma aura pessoal que fazia dele mais do que um observador: uma presença intensa e inesquecível.
Oscar fala através de textos e imagens. Epígrafes abrem cada capítulo, como se pintura e narrativa se chamassem mutuamente. À maneira de Simônides de Ceos, ele parece repetir que “a pintura é uma poesia muda e a poesia, uma pintura que fala”. Ambas, em suas páginas, tornam-se fusionais. Há entre elas laços silenciosos e uma antiga história de amor que ele transpõe para as palavras. Palavras e lembranças que, como diz, constituem uma “literatura pintada”. Neste livro-fleuve, ele as derrama com naturalidade e elegância.
São as memórias do viajante: Oscar percorre países e paisagens, vai de Londres a Paris, de Amsterdã a Roma, onde viveu; da China ao Marrocos; de Ipanema a Big Sur; de Ouro Preto a Tiradentes. São também as lembranças do artista e do homem do mundo, cuja presença desliza entre museus, galerias, boates, restaurantes sofisticados, tascas barulhentas, castelos, ruas e paisagens inesquecíveis. Em toda parte, o olhar do pintor repousa sobre as flores e suas cores. “As flores criaram os homens”, escreve ele. Em toda parte, também, aparece o príncipe-artista e suas conquistas: Melinas e mais Melinas até o encontro do grande e definitivo amor. Oscar, cabeça de Sansão, move-se entre continentes, entre o alto e o baixo, entre ricos e pobres, sem jamais perder a curiosidade humana. É também um extraordinário fazedor de amigos e afetos: de Sergio Paulo Rouanet à vizinha Zizinha; de José Muiños Piñeiro a Oscar Niemeyer; da condessa Pereira Carneiro a Afrânio Vilela, entre tantos outros que povoam estas páginas como uma constelação afetiva.
Suas memórias são atravessadas pela História da segunda metade do século XX: os anos vertiginosos da revolução cultural e sexual; o desaparecimento do Belo e da Beleza em favor de critérios ditos “populares” — quando ambos talvez pudessem conviver; os anos de ouro vividos em pleno tempo de chumbo; a ascensão e a queda do grande jornalismo, levando consigo seus pais fundadores; a financeirização das artes plásticas. Um mundo que, como o rio de suas lembranças nascido no riachinho do Encantado, deslizou para um oceano escuro e inquieto, cujas ondas ainda ouvimos rugir.
Nesse mesmo rio corre também o sangue da história familiar: os Araripe e os Alencar, famílias cearenses que adotaram no sobrenome uma marca geográfica e indígena, como quem inscreve a própria cor da pele na identidade da terra. O clã ganhou projeção no século XIX através de figuras ilustres do Cariri, descendentes diretos da heroína Bárbara de Alencar, um dos grandes nomes da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador. Uma linhagem feita de personagens intensos, onde convivem heróis e vilões, aventuras e rotinas, glórias públicas e dramas calados.
Uma vida de pintor é uma carteira de identidade, mas também de alteridade: a alteridade dos muitos Oscars que navegaram pela História. Por muitos mundos. Por muitas artes. Seu pacto autobiográfico é o da poesia e o da pintura. Oscar cria um lirismo crítico para atravessar com graça e humor o tempo. Como certos grandes autores que transformaram a própria existência em obra, faz do ato de escrever um arquivo vivo, uma lição geracional, uma universalidade moderna nascida de suas contradições e da aceitação de seus múltiplos rostos. Como Fernando Pessoa, a quem admira, abriga em si múltiplos eus. Oscar pertence hoje a uma espécie rara: a dos homens de formação autodidata e humanista, capazes de habitar simultaneamente a palavra, a imagem e a observação do mundo.
Agora, ao abrigo dos morros mineiros, das serras azuis e cor de castanhas que abraçam Tiradentes, ele nos ensina que a pintura “começa na pele e na pedra”: na experiência do tempo vivido e na perenidade do mineral. Lá estão o “falatório das flores”, o som dos sinos e “o silêncio da alegria”. Pouquíssimos homens chegam ao outono da vida sem romper o pacto com a própria singularidade. Em Uma vida de pintor, Oscar Araripe demonstra que o tempo não apagou a luminosidade do artista, do escritor ou do poeta; apenas lhes acrescentou sombras, profundidade e uma charmosa melancolia.
Mary del Priore
IHGB-IHGRJ-ACL-APL-PEN do Brasil
